Quando se pensa nas funções da literatura, é substancial cair no lugar comum que muitos teóricos e muitas teóricas apontam: catártica, estética, cognitiva, político-social e lúdica.
Ao ler Quotidiano, de Wellington Trotta, que mergulha na crônica, no conto e no poema, deparei-me, ora mais, ora menos, um pouco com cada uma dessas funções. O texto do autor é capaz de causar uma espécie de "explosão" de sentimentos (a catarse), aflorando as mais diversas emoções. Quase difícil não se ver (e ler) em alguns de seus textos tão inerentes a fatos cotidianos (como o próprio título da obra já nos conduz).
Além disso, há um quê de beleza da construção da obra (estética): seja em verso (que se aproxima dos aspectos clássicos, mas sem a eles se prender e render) ou em prosa, o autor cria diversos jogos de palavras e imagens.
Trotta é leitor do Rio de Janeiro. Partícipe e crítico da cidade. Muitas vezes, um flâneur, um errante com olhar bastante crítico sobre o que vê e o que experimenta, abrindo mão de ser comum. Se é fato que uma função primordial de todo tipo de produção escrita é, sem dúvidas, a capacidade de transmitir informações (cognitivo), o texto de Trotta nos conduz a esse aspecto.
Encontramos, também, em sua escrita, as inquietações e as questões sociais e políticas contemporâneas. Com seu olhar bastante singular, ácido e irônico, toca em questões cruciais que atendem às demandas contemporâneas, sem medo de dizer, sem medo de dever nada a ninguém. Para um lado ou para o outro.
Por fim, a literatura pode ter a função de simplesmente entreter o leitor (lúdica). E Trotta o faz magistralmente, divertindo e proporcionando algum tipo de prazer, de diversão: o mais básico que a literatura pode proporcionar a quem se atreve a abrir as páginas de um livro. É isso o que encontrei em Quotidiano.
Outono de 2024, Roberto Nunes Bittencourt.