A democracia já não precisa ser destruída por um golpe de Estado.
Hoje, ela pode desaparecer lentamente, mantendo eleições, parlamentos, tribunais e constituições.
As urnas continuam.
As instituições permanecem.
Mas a liberdade começa a desaparecer.
Em Democracias Capturadas, vigésimo quarto e último volume da coleção Os Senhores da Mentira, Francis Valadj investiga um dos fenómenos políticos mais sofisticados da atualidade: a erosão gradual das democracias por líderes que chegam legitimamente ao poder através do voto.
Ao contrário das antigas ditaduras, que suspendiam constituições e colocavam tanques nas ruas, os novos regimes aprenderam que é possível preservar toda a aparência democrática enquanto transformam lentamente o Estado numa estrutura cada vez mais concentrada.
O processo raramente acontece de um dia para o outro.
Primeiro enfraquecem-se os mecanismos de fiscalização.
Depois surgem pressões sobre a imprensa, sobre os tribunais e sobre os órgãos independentes.
As regras eleitorais começam a mudar.
O adversário deixa de ser visto como concorrente político e passa a ser tratado como ameaça permanente.
Pouco a pouco, votar continua possível.
Escolher deixa de o ser.
A partir de estudos clássicos da ciência política, casos históricos e acontecimentos contemporâneos, o autor apresenta os mecanismos que permitem reconhecer uma democracia em processo de captura antes que seja tarde demais.
Sem defender partidos, governos ou ideologias específicas, a obra aplica o mesmo critério crítico à esquerda e à direita, demonstrando que o autoritarismo pode surgir sob diferentes discursos, mas utilizando mecanismos surpreendentemente semelhantes.
Mais do que um livro sobre política, esta é uma investigação sobre liberdade.
Porque nenhuma democracia desaparece apenas por culpa de quem governa.
Ela também desaparece quando os cidadãos deixam de reconhecer os sinais da sua própria erosão.